segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Padre Pio e o "aggiornamento"


Um aspecto pouco conhecido da sua santidade: a sua recusa clara e nítida da reforma litúrgica e do “aggiornamento” do Concílio Vaticano II.


[Por ocasião da recente canonização do Padre Pio, publicamos a seguir um extrato do artigo do frei João, capuchinho de Morgon, França (artigo publicado na Carta aos amigos de São Francisco, nº 17, de 2 de fevereiro de 1999)]:


Modelo de respeito e de submissão a seus superiores eclesiásticos e religiosos, em particular por ocasião das perseguições contra ele próprio, o Padre Pio de Pietrelcina não podia ficar mudo ante um desafio nefasto à Igreja.


Antes mesmo do fim do concílio, em fevereiro de 1965, anunciaram-lhe que seria preciso em breve celebrar a missa segundo um novo rito “ad experimentum”, em língua vulgar, e elaborado por uma comissão litúrgica conciliar para responder às aspirações do homem moderno.


Antes mesmo de ter o seu texto sob os olhos, escreveu imediatamente a Paulo VI, pedindo-lhe fosse dispensado dessa experiência litúrgica e pudesse continuar a celebrar a Missa de São Pio V.

Tendo-se o cardeal Bacci deslocado para lhe levar esta autorização, Padre Pio deixou escapar esta queixa para o enviado do Papa: “O Concilio, por piedade, acabai com ele depressa!”


No mesmo ano, na euforia conciliar que prometia uma “nova primavera” para a Igreja e para o mundo, confiava a um de seus filhos espirituais: “Rezemos nesta época de trevas. Façamos penitência pelos eleitos.” E sobretudo por aquele que deve ser o supremo pastor da Igreja católica: toda a sua vida ele “se imolará” pelo Papa reinante, cuja fotografia figurará sempre entre as raras imagens da sua cela.


Quão significativas outras cenas: estas reações em face do “aggiornamento” que as ordens religiosas assimilaram no dia seguinte ao Vaticano II (citações extraídas duma obra munida de Imprimatur):


“O Padre Geral (dos franciscanos) veio de Roma antes do capítulo especial para as constituições, em 1966, para pedir ao Padre Pio orações e bênçãos. Encontrou o Padre Pio no corredor do convento: ‘Padre, vim para vos recomendar o capítulo especial para as novas constituições...’


Apenas ouviu “capítulo especial”, Padre Pio fez um gesto violento e gritou: ‘Não são senão parlapatices e ruínas!’ — ‘Mas que quereis, Padre? As novas gerações... os jovens evoluem à sua maneira... há novas exigências...’ — ‘É o cérebro e o coração que faltam, eis tudo, a inteligência e o amor’.”


Em seguida avançou para a sua cela, deu meia-volta, e apontou o dedo dizendo: “Não nos desnaturemos, não nos desnaturemos! Quando Deus nos julgar, São Francisco não nos reconhecerá como filhos!”


Um ano depois, a mesma cena para o “aggiornamento” dos capuchinhos: “Um dia, confrades discutiam com o Padre Definidor Geral sobre a Ordem, quando o Padre Pio, tomando uma atitude espantosa, se pôs a gritar ao mesmo tempo que fixava o olhar longe: “Mas que estais prestes a fazer em Roma? Que combinais vós? Quereis mesmo mudar a Regra de São Francisco!” E o Definidor diz: “Padre, propõem-se estas mudanças, porque os jovens nada querem saber da tonsura, do hábito, dos pés descalços...” — “Expulsai-os! Expulsai-os! Mas quê? São eles que vão fazer um favor a São Francisco ao tomar o hábito e ao seguir o seu modo de vida, ou é antes São Francisco que lhes faz um grande dom?”


Se se considera que o Padre Pio foi um verdadeiro alter Christus, que toda a sua pessoa, corpo e alma, foi tão perfeitamente conforme quanto possível à de Jesus Cristo, esta recusa nítida das inovações da Missa e do "aggiornamento” deve ser para nós uma lição que reter.


É também notável que o Bom Deus tenha querido lembrar-se dele, seu fiel servidor, pouco tempo antes da imposição implacável das reformas do Concílio no seio da Igreja e da ordem capuchinha. E que Katarina Tangari, uma das suas filhas espirituais mais privilegiadas, tenha apoiado tão admiravelmente os padres de Ecône até à sua morte, um ano após as sagrações episcopais.


E Padre Pio ainda era menos complacente em face da ordem — ou antes da desordem — social e política: “confusão de idéias e reino dos ladrões” (em 1966). Profetizou que os comunistas chegariam ao poder “por surpresa, sem desfechar golpe... Nós nos daremos conta disso da noite para o dia”. Chegou a precisar até, a Monsenhor Piccinelli, que a bandeira vermelha flutuaria sobre o Vaticano, “mas isso passará”.


Ainda aqui a sua conclusão coincide com a da Rainha dos Profetas: “Mas por fim o meu Coração Imaculado triunfará!” Como? Pela onipotência divina, certamente, mas provocada pelas duas grandes forças do homem: a oração e a penitência.


Foi a grande lição que Nossa Senhora nos quis lembrar com insistência, em Fátima, no princípio deste século: Deus quer salvar o mundo pela devoção ao Coração Imaculado de Maria, e não há nenhum problema, material ou espiritual, nacional ou internacional, que não possa ser resolvido pelo Santo Rosário e pelos sacrifícios.





quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

“TOMAI E COMEI”

“Tomai e comei”
Creio com Santo Afonso Maria de Ligório, que Jesus Cristo partindo deste mundo, nos deixou em memória de Seu amor não uma veste, um anel: “Mas o Seu Corpo, o Seu Sangue, a Sua alma, a Sua divindade, Ele mesmo, todo, sem reserva”.

“Tomai e comei”
Creio com São João Crisóstomo, que Nosso Senhor: “Deu-se todo não reservando nada para si”.

“Tomai e comei”
Creio com São Bernardino de Sena, que Cristo Jesus: “Abrasado de amor por nós e não satisfeito de preparar-se para dar sua vida pela nossa salvação, foi constrangido pelo excesso de seu amor a fazer uma obra maior: dar-nos, como alimento, o seu próprio corpo”.

“Tomai e comei”
Creio com São Bernardo de Claraval, que Jesus Sacramentado é o: “Amor dos amores”.

“Tomai e comei”
Creio com Santo Afonso Maria de Ligório, que: “Na Comunhão, Jesus une-se à pessoa e a pessoa a Jesus”.

“Tomai e comei”
Creio com São Francisco de Sales que: “Em nenhuma outra ação se pode considerar o Salvador mais carinhoso, mais amoroso do que nesta. Aniquila-se, por assim dizer, e se reduz a alimento para penetrar nossas almas e se unir ao coração de seus fiéis”.

“Tomai e comei”

Creio com São João Crisóstomo, que: “Jesus Cristo quer de tal modo unir-se conosco, pelo amor ardente que nos tem, que nos tornemos uma só coisa com ele”.

“Tomai e comei”

Creio com São Bernardino de Sena, que: “O dar-se Jesus Cristo a nós como alimento foi o último grau de amor. Deu-se a nós para unir-se totalmente conosco como se une o alimento diário com quem o toma”.

Pe. Divino Antônio Lopes FP.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Bons tempos em que tinhamos a Missa de Sempre na nossa região

D. Idílio José Soares, em sua primeira missa, ao lado de Monsenhor Rizzo, em 28 de outubro de 1945, no interior da Igreja do Rosário
Frei Rafael M. Marinho, recebendo a comunhão
Fonte: Novo Milênio





segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

A Igreja celebra os 26 mártires do Japão:


O Japão recebeu a fé cristã por meio de São Francisco Xavier, 1549-51. Após algumas décadas de cristianismo, o número de fiéis atingia 300000. Essa rápida expansão deveu-se a dois fatores: o respeito que os missionários jesuítas tinham para com o modo de vida dos japoneses e as crenças nipônicas que não eram de todo opostas ao cristianismo. Foi preciosa a colaboração dos elementos nativos.
Paulo Miki, nascido em 1564, de uma família abastada, tornou-se catequista. Admitiram a sua ordenação sacerdotal, pois a única diocese de Fusai ainda não havia recebido seu bispo. O imperador Toyotomi Hideyoshi (1587) de simpatizante tornou-se adversário dos missionários por causa da conquista da Coréia tendo então decretado a sua expulsão.
Alguns missionários, porém, não saíram. Ficaram escondidos. Alguns franciscanos espanhóis, guiados pelo padre Pedro Baptista, chegaram ao Japão através das Filipinas e foram bem acolhidos pelo imperador. Mas, pouco depois, por animosidade para com os espanhóis e os ocidentais deu-se a ruptura. No dia 9 de Dezembro de 1596 foram presos seis Franciscanos. Em seguida alguns terciários e catequistas (Paulo Suzuki).
Todos estes foram expostos a humilhações e arrastados de Meaco a Nagasaki para serem alvo de zombaria por parte do povo. Eram vinte e seis. O povo admirou a coragem que demonstravam. Foram crucificados sobre uma colina de Nagasaki no dia 5 de Fevereiro de 1597. Particularmente emocionantes foram as palavras de perdão e de testemunho evangélico pronunciadas por Paulo Miki, a serenidade e coragem de Luís Ibaraki (de 11 anos), de António (13 anos) e de Tomás Cosaki (14 anos) que morreram entoando o salmo: "Meninos louvai ao Senhor..." (do Evangelho Cotidiano –
http://evangelhoquotidiano.org/www/popup-saints.php?language=PT&id=10267&fd=0)

Obs.: Toyotomi Hideyoshi não era Imperador, mas ‘Kanpaku’ e, posteriormente ‘Taiko’, denominação máxima que alguém de origem humilde (era agricultor) poderia galgar. Na época o Imperador era uma figura simbólica relegada a segundo plano e protegida por ‘Kanpaku’ ou ‘Xogun’, situação que durou até a Restauração Meiji, em 1868.

Prreparação para a morte -- Das Penas do Inferno

Trecho do livro de Sto. Afonso

Das penas do inferno


Et ibunt in supplicium aeternum.
E irão estes ao suplício eterno (Mt 25,46).

O pecador comete dois males quando peca: aparta-se de Deus, Sumo Bem, e se entrega às criaturas. “Dois males fez meu povo: abandonaram-me a mim, que sou fonte de água viva, e cavaram para si cisternas rotas, que não podem reter a água” (Jr 2,13). Em vista de o pecador se ter dado às criaturas com ofensa a Deus, será justamente atormentado no inferno por essas mesmas criaturas, pelo fogo e pelos demônios: esta é a pena do sentido. Como, porém, sua maior culpa, na qual consiste a maldade do pecado, é a separação de Deus, o maior suplício do inferno é a pena do dano ou da privação da visão de Deus, perda irreparável.
Consideremos, em primeiro lugar, a pena do sentido. É de fé que existe inferno. No centro da terra se encontra esse cárcere, destinado ao castigo dos que se revoltaram contra Deus. Que é, pois, o inferno? O lugar de tormentos (Lc 16,28), como o chamou o mau rico; lugar de tormentos, onde todos os sentidos e todas as faculdades do condenado hão de ter o seu castigo próprio, e onde aquele sentido que mais tiverservido para ofender a Deus mais acentuadamente será atormentado (Sb 11,17; Ap 18,7). A vista padecerá o tormento das trevas (Jó 10,21). Digno de profunda compaixão seria um infeliz encerrado em tenebroso e acanhado calabouço, durante quarenta ou cinqüenta anos de sua vida. Pois o inferno é cárcere fechado por completo e escuro, onde nunca penetrará raio de sol nem qualquer outra luz (Sl 48,20).
O fogo que aqui na terra ilumina, não será luminoso no inferno.
“Voz do Senhor, que despede chamas de fogo” (Sl 28,7). Explica São Basílio que o Senhor separarádo fogo a luz; de modo que estas chamas arderão sem iluminar; o que Santo Alberto Magno exprime mais brevemente nestes termos: “Separará do calor o resplendor”. O fumo sairá dessa fogueira e formará a espessa nuvem tenebrosa que, como diz São Judas, cegará os olhos dos réprobos (Jd 13). Haverá ali apenas a claridade precisa para aumentar os tormentos. Uma sinistra claridade que permite ver a fealdade dos condenados e dos demônios, assim como o aspecto horrendo que estes tomarão para causarem mais horror.
O olfato padecerá o seu tormento próprio. Seria insuportável se nos metêssemos num quarto acanhado, onde jazesse um cadáver em putrefação. O condenado deve ficar sempre entre milhões de réprobos, vivos para a pena, mas cadáveres hediondos quanto à pestilência que exalam (Is 34,3). Disse São Boaventura que, se o corpo de um condenado saísse do inferno, bastaria ele só para produzir uma infecção em conseqüência da qual morreriam todos os homens do mundo... E ainda há insensatos que se atrevem a dizer: “Se for ao inferno, não irei sozinho...” Infelizes! Quanto maior for o número de réprobos ali, tantos maiores serão os sofrimentos de cada um. “Ali — diz São Tomás — a companhia de outros desgraçados não alivia; antes aumenta a desventura geral”. Muito mais sofrerão, sem dúvida, pela fetidez asquerosa, pelos gritos daquela multidão desesperada, e pelo aperto em que se acharão amontoados e comprimidos os réprobos, à semelhança de ovelhas em tempo de inverno (Sl 48,15), ou como uvas esmagadas no lagar da cólera de Deus (Ap 19,15). E assim mesmo padecerão o tormento da imobilidade (Êx 15,16). Da maneira como o condenado cair no inferno, assim há de permanecer imóvel, sem que lhe seja dado mudar de posição, nem mexer mão nem pé, enquanto Deus for Deus.
O ouvido será atormentado com os contínuos gritos aflitivos daqueles pobres desesperados, e pelo barulho horroroso que, sem cessar, os demônios provocam (Jó 15,21). Quando desejamos dormir, é com o maior desespero que ouvimos o contínuo gemido de um doente, o choro de uma criança ou o ladrar de um cão... Infelizes réprobos, que são obrigados a ouvir, por toda a eternidade, os gritos pavorosos de todos os condenados!... A gula será castigada com a fome devoradora... (Sl 58,15)
Entretanto, não haverá ali nem uma migalha de pão. O condenado sofrerá sede abrasadora, que não se apagaria com toda a água do mar. Mas não se lhe dará uma só gota. Uma só gota d’água pedia o rico avarento, e não a obteve, nem a obterá jamais.
A pena do sentido que mais atormenta aos réprobos é o fogo do inferno, tormento do tacto (Ecl 7,19). O Senhor o mencionará especialmente no dia do juízo: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno” (Mt 25,41). Mesmo neste mundo, o suplício do fogo é o mais terrível de todos. Entretanto, há tamanha diferença entre as chamas da terra e as do inferno, que, segundo afirma Santo Agostinho, em comparação daqueles, as nossas são como fogo pintado; ou como se fossem de gelo, acrescenta São Vicente Ferrer. E a razão consiste em que o fogo terreal foi criado para utilidade nossa, ao passo que o do inferno foi criado expressamente para castigo. “Mui diferentes são — diz Tertuliano — o fogo que se utiliza para uso do homem e o que serve para a justiça de Deus”. A indignação de Deus é que acende essas chamas de vingança (Jr 15,14); e por isso Isaías chama espírito de ardor ao fogo do inferno (Is 6,4). O réprobo estará dentro dessas chamas, envolvido por elas, como um pedaço de lenha numa fornalha. Terá um abismo de fogo debaixo de seus pés, imensas massas de fogo sobre sua cabeça e ao derredor de si. Quando vir, apalpar ou respirar, fogo há de respirar, apalpar e ver. Estará submergido em fogo como o peixe em água. E essas chamas não cercarão apenas o condenado, mas penetrarão nele, em suas próprias entranhas, para atormentá-las. Todo o corpo será pura chama; arderá o coração no peito; as vísceras, no ventre; o cérebro, na cabeça; nas veias, o sangue; a medula, nos ossos. Cada condenado converter-se-á numa fornalha ardente (Sl 20,10).
Há pessoas que não suportam o ardor de um solo aquecido pelos raios do sol, que não sofrem estar junto a um braseiro num quarto fechado, que não resistem à chama de uma lâmpada, e contudo não temem este fogo devorador, como lhe chama Isaías (Is 33,14). Assim como uma fera devora um tenro cordeirinho, assim as chamas do inferno devorarão o condenado. Devorá-lo-ão sem o fazer morrer. “Continua, pois, insensato — diz São Pedro Damião, dirigindo-se ao voluptuoso — continua a satisfazer tua carne, que virá um dia em que tuas impurezas se converterão em ardente pez dentro de tuas entranhas e tornarão mais intensa e mais abrasadora a chama infernal em que hás de arder” . Acrescenta São Jerônimo que aquele fogo trará consigo todos os tormentos e todas as dores que nos atribulam na terra; até o tormento do frio se padecerá ali (Jó 24,19). E tudo com tal intensidade que, segundo disse São João Crisóstomo, os padecimentos deste mundo são pálida sombra em comparação aos do inferno.
As faculdades da alma terão também o seu castigo apropriado. O tormento da memória será a viva recordação do tempo que, em vida, teve o condenado para salvar-se e que empregou em perder-se, e das graças que Deus lhe concedeu e que foram desprezadas. O entendimento sofrerá ao considerar o grande bem que perdeu perdendo a Deus e o céu, ponderando que essa perda é já irreparável. A vontade verá que se lhe nega tudo quanto deseja (Sl 140,10). O desventurado réprobo nunca obterá nada do que quer, e sempre terá aquilo que mais o aborreça, isto é, males sem fim. Quererá livrar-se dos tormentos e desfrutar paz. Mas sempre será atormentado, jamais encontrará momento de repouso.
Todas as penas referidas nada são em comparação com a pena do dano. As trevas, a infecção, o pranto, as chamas não constituem a essência do inferno. O verdadeiro inferno é a pena de ter perdido a Deus! Dizia São Bruno: “Multipliquem-se os tormenos, contanto que não se prive de Deus”. E São João Crisóstomo: “Se disseres mil infernos de fogo, nada dirás comparável à dor daquele”. Santo Agostinho acrescenta que, se os réprobos gozassem da visão de Deus, “não sentiriam tormento algum, e o próprio inferno se converteria em paraíso”.
Para compreender algo desta pena, consideremos: Se alguém perde, por exemplo, uma pedra preciosa que valha cem escudos, sentirá grande mágoa; mas se esta pedra valesse duzentos, muitos mais sentiria.
Portanto: quanto maior é o valor do objeto que se perde, tanto mais se sente a pena que ocasiona a perda... E como os réprobos perdem o bem infinito, que é Deus, sentem — como diz São Tomás — uma pena dalgum modo infinita.
Neste mundo somente os justos temem esta pena, disse Santo Agostinho. Santo Inácio de Loyiola exclamava:“Senhor, tudo sofrerei, mas nunca de ficar privado de vós”. Os pecadores não fazem caso desta grande perda, porque vivem largos anos sem Deus, mergulhados em trevas. Na hora da morte, entretanto, reconhecerão a grandeza do bem que perderam. A alma, ao partir deste mundo, — diz Santo Antonino, — reconhece que foi criada por Deus e irresistivelmente deseja unir-se e abraçar-se com o Bem Supremo; achando-se, porém, em estado de pecado, Deus a repele.
Se um galgo acorrentado vê perto de si esquisita presa, esforça-se para romper a cadeia e lançar-se ao seu encalço. A alma ao separar-se do corpo se sente naturalmente atraída para Deus. O pecado, porém, a afasta e arremessa pedras nela (Is 50,2). Todo o inferno, pois, se resume nas primeiras palavras da sentença: “Apartai-vos de mim, malditos” (Mt 25,4). “Apartai-vos, dirá o Senhor, não quero que torneis a ver-me a face. Mesmo que se imaginassem mil infernos, nada se poderia conceber que eqüivalesse à pena de ser odiado por Cristo”. Quando David impôs a Absalão o castigo de que jamais comparecesse diante dele, Absalão sentiu dor tão profunda, que exclamou: “Dizei a meu pai que, ou me permita ver o seu rosto ou me dê a morte” (2Rs 14,15).
Vendo Filipe II que um nobre de sua corte se achava na igreja com pouco respeito, disse-lhe severamente: “Não consinto que doravante vos apresenteis diante de mim”. E tal foi a consternação e a dor daquele cortesão, que, ao chegar à sua casa, morreu de pesar... Que será, quando Deus despedir o réprobo para sempre?... “Esconderei dele a minha face... e cairão sobre ele todos os males e aflições” (Dt 31,17). Já não sois meus, nem eu vosso, dirá Cristo aos condenados (Os 1,9) no dia do juízo.
É dor imensa para um filho ou uma esposa pensar que nunca tornará a ver seu pai ou seu esposo, que acaba de morrer... Se, ao ouvir os gemidos da alma de um réprobo, lhe perguntássemos a causa de tamanha dor, que sentiria ela ao dizer-nos: “Choro, porque perdi a Deus e nunca mais o tornarei a ver?” Se ao menos o desgraçado pudesse amar a Deus no inferno e conformar-se com a vontade de Deus! Mas não; se o pudesse fazer, o inferno deixaria de ser inferno. Nem poderá resignar-se, nem lhe será dado amar a Deus. Viverá a odiá-lo eternamente; e esse há de ser o seu maior tormento: conhecer que Deus é o Sumo Bem, digno de infinito amor, e ver-se forçado a aborrecê-lo para sempre.
“Sou aquele malvado despojado do amor de Deus”, respondeu o demônio, quando interrogado por Santa Catarina de Gênova. O réprobo odiará e amaldiçoará a Deus, e amaldiçoando-o, amaldiçoará também os benefícios que dele recebeu, a criação, a redenção, os sacramentos, especialmente os do batismo e da penitência, e sobretudo o Santíssimo Sacramento do Altar. Aborrecerá todos os anjos e com ódio implacável o seu anjo da guarda, os seus santos padroeiros e a Virgem Santíssima. Malditas serão por ele as três Pessoas divinas, especialmente a de Deus Filho, que morreu para salvar-nos, e as chagas, os trabalhos, o sangue, paixão e morte de Cristo Jesus.